Suspensão europeia à carne brasileira amplia tensão comercial entre Brasil e União Europeia
RISCO PARA O BRASIL: MÉDIO-ALTO
→ A União Europeia suspendeu, em 3 de setembro, as importações de carne e outros produtos de origem animal brasileiros após o Brasil não apresentar a documentação exigida sobre a fiscalização do uso de antimicrobianos.
→ A suspensão não decorre de irregularidades identificadas nos produtos brasileiros, mas da falta de comprovação documental exigida pela UE .As negociações entre Brasília e Bruxelas continuam, mas a carne bovina enfrenta maior dificuldade de retomada devido à exigência de fiscalização de toda a cadeia produtiva.
Escrito por Andressa Zuttin Scappini, Marcela Retore Almirall e Rebeca Lavalle Magalhães

Fonte: Economic News Brasil
Brasil é suspenso após não conseguir apresentar documentos de fiscalização requeridos pela UE
Em maio, a União Europeia (UE) anunciou uma medida a ser aplicada em 3 de setembro, que exclui o Brasil de sua lista de países que cumprem as regras sobre o uso de antimicrobianos (utilizados para o tratamento de infecções e para o estímulo de crescimento de animais) na produção pecuária. Assim, os europeus suspenderam as compras de carne e outros produtos de origem animal brasileiros (como frango, mel, pescados e ovos). O bloco demonstra preocupação em relação à possibilidade do desenvolvimento de infecções ocasionadas por bactérias resistentes a antibióticos em sua população, o que torna-os mais rígidos sobre o uso desses recursos na criação de animais. Apesar de não terem encontrado irregularidades no produto brasileiro, o fato de o país não ter apresentado a tempo a documentação exigida pela UE, demonstrando falta de fiscalização sobre as substâncias, motivou a decisão. Agricultores europeus acusam, ainda, os produtos latino-americanos de se tornarem injustamente mais competitivos no mercado ao não respeitarem as normas fitossanitárias e de segurança alimentar de seus países.
Pecuaristas esperam impacto reduzido das ações europeias
Apesar de significativo, o bloco europeu não é o principal mercado da carne brasileira em relação ao volume. Em 2025, apenas cerca de 3,7% das exportações totais correspondiam a ele. Já em relação a receita, a Europa torna-se mais relevante, contando com aproximadamente 5,5% do faturamento externo dessa área, devido ao preço elevado dos cortes que são destinados a essa região. Além disso, esse mercado ajuda a dar visibilidade ao Brasil em um cenário internacional. Porém, no primeiro momento, é esperado pela Associação Brasileira de Frigoríficos que o impacto europeu não seja sentido com tamanha força, já que pode ser coberto pela ampliação da cota de importação americana (300 mil toneladas a mais), que conta com tarifa reduzida por 90 dias. Isso não significa, porém, que os brasileiros estão livres da concorrência de outros países, o que aumenta o cenário de incerteza e de procura pelo restabelecimento de laços com a UE.
Brasil tem dificuldade de liberar a exportação de carne bovina em negociações com a UE
O governo brasileiro vinha tentando convencer a União Europeia da funcionalidade do sistema de fiscalização e certificação dos produtos, o que, entretanto, não possibilitou o fim da validação da suspensão. Desse modo, conversas permanecem em andamento entre os dois, uma vez que estas são a única possibilidade de reversão da medida. Enquanto as inspeções às exportações de aves e mel já iniciaram e as vendas poderão ser retomadas algum tempo após uma inspeção, o Brasil ainda não forneceu garantias necessárias para uma auditoria em relação à carne bovina. Isso ocorre porque, a exigência europeia com relação a essa área é da comprovação do cumprimento das suas regras ao longo de toda cadeia produtiva. O Brasil já apresentou novo protocolo para atender à proibição de antimicrobianos e promete cumpri-la em 100% até 2032, o que ajuda em sua imagem internacional e na conquista de outros mercados. Além disso, o governo afirma que apresentou as garantias exigidas pela UE e espera uma solução rápida para retomar as exportações. Declarou-se ainda que, caso não haja acordo, podem ser adotadas medidas de reciprocidade.
O que a Index prevê?
O impacto econômico tende a ser limitado, diante da baixa participação da UE no volume total exportado. A ampliação temporária da cota norte-americana reduz parte da pressão sobre os frigoríficos brasileiros.
A manutenção da suspensão aumentará a pressão por ajustes nos mecanismos brasileiros de fiscalização e rastreabilidade, sobretudo na cadeia de carne bovina, cuja retomada exige comprovação de conformidade em todas as etapas produtivas.
A persistência do impasse elevará o risco de deterioração da relação comercial Brasil-UE. Sem avanço nas negociações, medidas de reciprocidade introduzirão um conflito comercial mais amplo e pressionarão a implementação do acordo Mercosul-UE.
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