top of page

Acordo Nuclear EUA-Arábia Saudita

31 de jul.
4 min de leitura

RISCO PARA O BRASIL: MÉDIO


→ A cooperação nuclear entre EUA e Arábia Saudita amplia o programa nuclear saudita ao prever apoio americano para fins oficialmente civis. Politicamente, Riade busca fortalecer sua posição diante do Irã e reduzir sua vulnerabilidade às ameaças regionais. Em contrapartida, a intenção de enriquecer urânio e a resistência a controles internacionais aumentam o risco de uso militar, de uma corrida nuclear no Oriente Médio e de novas pressões sobre o mercado de petróleo.

No curto prazo, as tensões no Golfo e os ataques dos Houthis devem aumentar a volatilidade do petróleo e pressionar a inflação global. Ao mesmo tempo, o avanço nuclear saudita pode estimular uma corrida armamentista no Oriente Médio, enquanto o resultado das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos definirá o futuro do acordo e o grau de dependência da Arábia Saudita em relação a Washington.


Escrito por Luisa Du Bois, Heloísa Garcia, Mariana Campos, Beatriz Graner e Augusto Olivera.


Fonte: Asia Times. The US and Saudi Arabia have a nuclear deal in place. Image: Screengrab / Al Jazeera


Acordo nuclear saudita amplia preocupação com possível uso militar 


A cooperação nuclear entre Estados Unidos e Arábia Saudita prevê apoio americano a um programa oficialmente voltado à produção de energia. O acordo, porém, gera preocupação porque deve dar ao governo saudita domínio sobre tecnologias que também podem ser usadas para fins militares. A rivalidade com o Irã torna essa possibilidade mais sensível, pois uma estrutura nuclear própria aumentaria a autonomia da Arábia Saudita diante de seu principal rival regional. Riad também tem interesse em evitar controles internacionais mais rígidos porque essas restrições limitariam sua liberdade para desenvolver e ampliar o programa nuclear. Da mesma forma, enriquecer urânio dentro do próprio território reduziria a dependência de fornecedores estrangeiros e daria ao país controle sobre uma das etapas mais sensíveis do processo. Essa intenção preocupa porque o enriquecimento serve para produzir combustível nuclear, mas, em níveis mais elevados, também pode ser usado na fabricação de armas. Caso a Arábia Saudita obtenha essas capacidades em condições pouco restritivas, outros países da região devem buscar o mesmo caminho, ampliando o risco de uma corrida nuclear no Oriente Médio.


Resposta das Potências Regionais


A perspectiva de um programa nuclear saudita com capacidade de enriquecimento altera os cálculos de segurança das potências do Oriente Médio. Cada ator regional tenderá a responder com base nos próprios interesses. Como alvo direto da dissuasão saudita, o Irã verá a nuclearização de Riade como uma ameaça existencial. Isso servirá de pretexto para Teerã abandonar a contenção e acelerar o seu próprio programa armamentista

Visando manter sua vantagem militar, Israel rejeita a nuclearização árabe. Assim, pressionará Washington por inspeções na Árabia Saudita e usará a normalização diplomática como moeda de troca para obter garantias de segurança dos EUA.

Os Emirados Árabes Unidos, se sentindo em desvantagem por terem renunciado ao enriquecimento de urânio em 2009, exigirão a renegociação do seu acordo caso Riade obtenha esse direito, o que desencadeará uma corrida tecnológica entre os aliados da região.

Devido à desconfiança da hegemonia saudita e à partilha de reservas de gás com o Irã, o Catar irá se sentir vulnerável. Temendo um novo bloqueio diplomático e econômico, Doha procurará aprofundar a sua aliança militar com os EUA e intensificar a mediação regional para evitar conflitos no Golfo.

Implicações para o Cenário do Oriente Médio


A região do Oriente Médio, já instável devido aos conflitos diretos e indiretos envolvendo os EUA, Israel, Irã e os Estados do Golfo, enfrenta um risco ampliado. O Príncipe Herdeiro Mohammed bin Salman declarou que, caso o Irã obtenha uma arma nuclear, a Arábia Saudita seguirá o mesmo percurso sem hesitação.

As ameaças contínuas à segurança saudita intensificam as preocupações soberanas de Riade, em particular devido aos ataques realizados pelos Houthis. Atuando como uma milícia proxy do Irã, este grupo iemenita recebe armamento, financiamento e inteligência militar de Teerã. Os Houthis servem, assim, como uma extensão armada da estratégia de guerra iraniana, permitindo ao Irã projetar poder regional e atacar infraestruturas vitais da Arábia Saudita sem se envolver num conflito direto e aberto.

Com a liderança no Irã nas mãos do Aiatolá Mojtaba Khamenei, que é mais aberto à obtenção de armas nucleares que seu antecessor, o acordo EUA-Arábia Saudita tende a se tornar um catalisador para uma nova era de militarização aberta na região.  Devido a essa nova era, o monopólio nuclear norte-americano na região enfraquece uma vez que se torna muito custoso para Trump mediar os conflitos crescentes entre as nações do Oriente Médio acerca de seus respectivos programas nucleares, o que atenua a presença americana no cenário nuclear na região.

 


O que a Index prevê? 


  • As crescentes tensões diplomáticas no Golfo e os ataques dos Houthis trarão forte volatilidade ao mercado de energia. Resultando em um agravamento da inflação global, devido ao aumento no preço do petróleo.

  • O acesso da Arábia Saudita ao enriquecimento nuclear alterará o equilíbrio de poder no Oriente Médio, gerando um efeito dominó armamentista por parte das outras potências regionais.

  • O resultado das midterm elections americanas definirá o rumo do acordo e a estratégia de Trump. Se ele mantiver força no Congresso, aprovará o pacto; caso perca, o impasse legislativo fará a Arábia Saudita buscar alternativas menos transparentes e dependentes dos EUA.

Comentários


bottom of page