Diálogo com ressalvas: como o Planalto lê a ligação de Trump e Lula às vésperas da eleição
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RISCO PARA O BRASIL: MÉDIO/ALTO
→A conversa telefônica entre o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o americano Donald Trump, em 21/08 marcou a retomada do diálogo após meses de crise nas relações dos dois países. Apesar disso, o governo vê o contato com cautela. Assessores do presidente Lula acreditam que a conversa foi positiva, mas estaria longe de significar uma "normalização" das relações entre EUA e Brasil deflagrada por sobretaxas americanas a produtos brasileiros.
→No curto prazo, a expectativa é de avanço técnico nas negociações comerciais, sem reversão imediata das tarifas. Já no médio prazo, a proximidade de Trump com os Bolsonaro deve sustentar a pressão diplomática americana à medida que a eleição se aproxima, enquanto, num horizonte mais longo, a percepção de que os EUA são um ator interessado no pleito, e não um interlocutor neutro, tende a se consolidar ao longo de toda a campanha.
Escrito por Andressa Scappini, Marcela Almirall e Rebeca Lavalle

Fonte: CNN Brasil
Lula e Trump discutem sobre comércio, crime organizado e conflitos mundiais
O telefonema realizado no dia 21 de agosto de 2026 entre Lula e Trump foi o terceiro desde outubro do ano passado , além de ter sido o mais longo, com duração de 1 hora e 20 minutos. No governo brasileiro, a duração e o tom da conversa são vistos como sinais de que Lula e Trump conseguiram restabelecer uma interlocução política no mais alto nível. Os dois presidentes trataram de três temas principais: comércio, crime organizado e os conflitos mundiais, como a guerra na Ucrânia e no Irã. O Palácio do Planalto informou, em nota, que a ligação transcorreu em tom amistoso e cordial, com Lula tratando sobre a imposição de novas tarifas de 12,5% e 25% sobre as exportações brasileiras. Enfatizou que as alegações que basearam a medida são infundadas e que as tarifas afetam negativamente tanto o Brasil quanto os Estados Unidos e que seguir na mesa de negociação é a melhor opção para os dois países. Segundo a nota, o presidente Trump concordou com a necessidade de preservar vínculos comerciais fortes e propôs que equipes dos dois países voltassem a se reunir o mais brevemente possível. Lula ainda reiterou sobre o interesse brasileiro na cooperação com os Estados Unidos no combate ao crime organizado. Ele argumentou que grupos criminosos exercem terror cotidiano sobre as populações mais carentes, mas não se confundem com organizações terroristas. Segundo a nota, o presidente brasileiro enumerou a Trump leis, ações e medidas adotadas no combate à criminalidade.
Governo Brasileiro enxerga cautelosamente o telefonema pensando nas eleições de 2026
Os assessores do governo Lula veem o diálogo com Trump um maior impasse para tornar verdadeira a hipótese de que Trump se manifestará diretamente durante as eleições presidenciais, nas quais Lula tenta um quarto mandato. Por outro lado, no entanto, eles ainda avaliam que outros membros da administração norte-americana podem tentar interferir na disputa. A maior desconfiança se concentra no Departamento de Estado, comandado por Marco Rubio. A atuação do órgão é vista pelo governo brasileiro como mais crítica em relação a Brasília do que o comportamento adotado por Trump. Porém, o governo avalia que o secretário de Estado não consegue estragar por completo a relação e o canal construído diretamente entre Lula e Trump. A avaliação é de que nem sempre as determinações dadas por Trump em relação ao Brasil estariam sendo acolhidas pelos escalões mais baixos do seu governo. Seriam esses escalões, segundo um auxiliar de Lula, que estariam mais próximos da influência supostamente exercida por familiares do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), como o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, e seu irmão, o senador e candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ).O tema chama atenção porque, há algumas semanas, Flávio Bolsonaro se reuniu com diplomatas de diversos países, inclusive dos EUA, e pediu que a comunidade internacional enviasse observadores para acompanhar as eleições brasileiras. Seu pai e aliados da direita já colocaram em dúvida a confiabilidade das urnas eletrônicas.Apesar de comemorarem a retomada do diálogo com Trump, auxiliares de Lula continuam avaliando que medidas como os dois tarifaços constituem tentativas de interferência no processo eleitoral brasileiro. Fontes do governo também ponderam que Trump é imprevisível e pode mudar de posição de um dia para o outro e que ele deve ficar mais absorvido pelas eleições legislativas americanas nos próximos meses, o que pode reduzir a atenção dedicada à relação com o Brasil. Um novo encontro presencial entre os dois presidentes é considerado possível à margem da Assembleia Geral da ONU em setembro, quando as delegações de Brasil e EUA tradicionalmente se cruzam.
O que a Index prevê?
Probabilidade alta: No médio a longo prazo, a conexão pessoal entre Trump e o bolsonarismo tende a fazer com que o governo americano seja percebido no Brasil, menos como um interlocutor neutro e mais como um ator interessado no resultado da eleição de outubro, o que fortalece a narrativa de Lula sobre interferência externa. Trata-se de uma percepção que deve se consolidar ao longo de toda a campanha, não de um efeito imediato.
Probabilidade média-alta: No curto prazo, A retomada do diálogo direto entre os presidentes deve abrir caminho para novas rodadas de negociação entre as equipes técnicas dos dois países já nas próximas semanas, com um possível novo contato pessoal em setembro, à margem da Assembleia Geral da ONU, sem que isso represente reversão imediata das tarifas já em vigor.
Probabilidade média: No médio prazo, do lado americano, a proximidade com Jair e Flávio Bolsonaro cria um incentivo para manter a pressão diplomática até mais perto da eleição, na expectativa de que o desgaste bilateral prejudique a imagem do governo Lula perante o eleitorado. O efeito tende a se intensificar à medida que outubro se aproxima, não de imediato.
Probabilidade média: No curto a médio prazo, a resistência de setores como o Departamento de Estado, somada à imprevisibilidade de Trump e ao seu foco crescente nas eleições legislativas americanas, deve limitar o ritmo de avanço das negociações comerciais nos próximos meses, mesmo com o canal aberto entre os dois presidentes.
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