Flávio Bolsonaro chega à reta final como favorito, mas abstenção e redistribuição de votos de candidatos eliminados mantém certa incerteza eleitoral
A concentração de aproximadamente 92% dos votos nos finalistas do primeiro turno limita o espaço para redistribuição eleitoral no segundo, beneficiando a campanha bolsonarista.
Pesquisas recentes e modelos estatísticos apontam um cenário favorável a Flávio Bolsonaro, embora a redução da distância entre os candidatos em outubro indique uma disputa ainda competitiva.
A transferência de votos dos candidatos eliminados e a abstenção constituem as principais fontes de incerteza eleitoral, entretanto, esta é interpretada como insuficiente para diminuir significativamente a probabilidade de vitória da direita.
Escrito por Julia Santos

Fonte: F5 Uol
Análise completa:
Após o primeiro turno, o candidato da direita Flávio Bolsonaro desponta como o mais provável vencedor das eleições presidenciais. Com 47,03% dos votos contra os 45,16% do candidato Lula, ambos concentraram 92% dos votos válidos, o que limita a redistribuição de votos no segundo turno. A margem estreita para mudança percentual acirra a competição e aumenta a incerteza em torno do resultado.
Entretanto, modelos estatísticos recentes, pesquisas e cotações de mercado, assim como o comportamento dos eleitores ante as últimas notícias, quando analisados em conjunto com indicadores viabilizam a elaboração de uma previsão para o resultado eleitoral de 2026.
A partir do resultado do primeiro turno, o incumbente precisaria de 62% dos votos dos candidatos eliminados para superar Bolsonaro, partindo do pressuposto que não haverá transferência de votos de Flávio para Lula e de que a composição dos votos válidos permanecerá constante. Os candidatos eliminados, entretanto, possuem maior proximidade ideológica em relação a Flávio do que a Lula, o que pode ser evidenciado tanto pelo modelo estatístico RPA (Russo, Pimentel e Avelino) que utiliza os resultados do primeiro turno para estimar possíveis resultados para o segundo, quanto por análises de discursos e propostas.
Na análise de 2026, os autores do RPA incluíram um índice de proximidade ideológica, que indica que quatro quintos do estoque ideológico dos candidatos eliminados tem maior proximidade com o campo da direita do que com o da esquerda. O gráfico abaixo evidencia uma ligeira vantagem bolsonarista na corrida eleitoral em relação ao primeiro turno ao levar em conta a proximidade ideológica dos candidatos eliminados.

Fonte: Folha de S. Paulo (6 out. de 2026)
O modelo conclui que Lula teria entre 19% e 29,5% de chance de vitória no segundo turno.
Caiado, Zema e Augusto Cury declararam apoio ao candidato da direita, enquanto Renan Santos mantém neutralidade sob a justificativa de um projeto político independente. Em pesquisa feita pela Datafolha (19 de out.), no total, Flávio herdou cerca de 46% dos eleitores dos demais candidatos, enquanto Lula herdou cerca de 32%. Ainda que Renan Santos tenha vocalizado com maior intensidade sua desaprovação a candidatura bolsonarista, muito graças a cobranças por apoio ao senador por parte do eleitorado de direita, algumas semelhanças entre as propostas das candidaturas do Missão e do PL, especialmente quanto a políticas de segurança pública, aumentam a probabilidade de redirecionamento de votos para Flávio.
As pesquisas mais recentes (Atlas/Bloomberg e Quaest) revelam a mesma tendência ao longo do tempo, em que Flávio apresenta uma vantagem numérica na corrida eleitoral a partir do começo de setembro. Contudo, depois do primeiro turno das eleições presidenciais, a Quaest apresentou estabilidade na vantagem numérica bolsonarista, enquanto a Atlas/Bloomberg revelou um aumento nessa vantagem no início de outubro, seguida por uma diminuição da mesma na semana seguinte. Um analista da AtlasIntel afirma que Lula aumentou sua popularidade com o eleitorado feminino, nordestino e de apoiadores de candidatos eliminados no primeiro turno. Essa vantagem aumenta a competitividade da disputa, mas deve ser insuficiente para influenciar uma vitória lulista.
Tais variações podem ser explicadas por diferenças metodológicas entre institutos, de modo que a tendência ao longo do tempo de vantagem bolsonarista se torna mais útil para previsão de um resultado eleitoral.


De acordo com um relatório publicado em 16 de Outubro, a Eurasia considera que Flávio tem 75% de probabilidade de vitória nas urnas ao levar em conta as pesquisas mais recentes de intenção de voto e os modelos de previsão eleitoral. Contudo, estas pesquisas e modelos desconsideram os índices de abstenção para o reajuste de suas estimativas, o que tende a subestimar a magnitude do voto conservador, dado o histórico de maior abstenção dos votantes lulistas, mais especificamente do segmento sociodemográfico mais pobre. Para a consultoria de risco político, o maior desafio da campanha lulista seria justamente reduzir os índices de abstenção, principal gargalo para uma possível virada no segundo turno.
Ao contrário, a Index prevê que o percentual de abstenção será maior no segundo turno. É provável que o eleitorado da terceira via adote a neutralidade dentro de uma disputa polarizada, com o intuito de exercer certa autonomia política independente da polarização. Esta percepção é mais latente entre o eleitorado de Renan Santos, mas deve se expandir para grande parte do eleitorado de terceira via.
Dentro desse contexto, as recentes mobilizações de ambos polos políticos não devem surtir influência suficiente sobre o eleitorado indeciso, corroborando para maior abstenção. Escândalos de corrupção como o Caso Vorcaro para o campo da direita e o Escândalo do INSS para o da esquerda tendem a desmotivar o eleitorado indeciso ou de terceira via quanto ao voto no segundo turno.
O mercado de previsão, que associa um preço de um contrato a probabilidade implícita de determinado evento ocorrer, também prevê uma vitória bolsonarista. A plataforma Polymarket, uma das mais conhecidas na área, tem como valor do contrato associado a vitória de Flávio Bolsonaro 76.3 centavos de dólar, enquanto a vitória de Lula tem valor associado de 24 centavos de dólar. O contrato está associado ao pagamento de 1 dólar caso o resultado se confirme e de 0 dólares caso contrário. Deste modo, o valor pode ser interpretado como probabilidade implícita de vitória, isto é, determina uma chance de 76.3% de vitória da direita, contra 24% de probabilidade de vitória lulista.
Este valor representa uma expectativa futura exclusiva dos participantes, não representando uma parcela significativa do eleitorado. Deste modo, oscilações nos valores dos contratos não representam o impacto real de determinado acontecimento e não correspondem a uma medida de intenção de voto, mas sim a um indicador da expectativa coletiva.

Fonte: Polymarket (19 de out. de 2026)
Portanto, apesar da vantagem estreita de Flávio Bolsonaro após o primeiro turno, a campanha lulista não deve ter margem suficiente para alterar significativamente tal cenário. O aumento na vantagem de Lula nas últimas pesquisas deve ser pouco relevante, dado os índices de abstenção e tendências das pesquisas em subestimar o eleitorado conservador, como foi evidenciado no primeiro turno com vitória imprevista de Bolsonaro.
Nesse contexto, a abstenção e a distribuição dos votos dos candidatos eliminados constituem duas variáveis centrais para o resultado de 25 de outubro, e são aquelas que ainda contribuem para certa incerteza no cenário eleitoral. Apesar disso, a vitória de Flávio Bolsonaro tende a ser mais provável, consagrando uma possível retomada do clã bolsonarista ao Palácio do Planalto.
Uma vitória de Flávio na presidência implicaria em mudanças de governança, especialmente quanto a políticas econômicas e de segurança pública. A campanha bolsonarista propõe uma nova regra fiscal atrelada à trajetória da dívida pública, de modo que a evolução da dívida iria delimitar mais diretamente a margem para os gastos governamentais. Caso a nova regra seja considerada crível, tal medida deve aumentar a confiança de investidores durante o governo, e, consequentemente, os níveis de investimento nacional, dada a percepção de sustentabilidade das contas públicas.
Quanto às políticas de segurança pública, Flávio propõe que organizações criminosas como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) sejam consideradas organizações narcoterroristas. Tal medida permite que o enfrentamento ao crime organizado englobe instrumentos jurídicos de combate ao terrorismo, assim como viabiliza uma maior cooperação internacional, especialmente com os Estados Unidos. Uma maior proximidade com os Estados Unidos para o combate do crime organizado transnacional deve facilitar a troca de recursos e informações entre países, mas é provável que esta também incorra em custos reputacionais internos, visto que a soberania brasileira pode ser percebida como mais vulnerável.
O que a Index prevê?
Vitória de Flávio Bolsonaro — Os resultados do primeiro turno e os modelos eleitorais analisados sustentam a hipótese de vitória de Flávio, ainda que a recuperação recente de Lula nas pesquisas e as margens estreitas impedem considerar o resultado definido.
Redistribuição heterogênea dos votos da terceira via — A proximidade ideológica entre candidaturas não implica transferência automática de votos. O comportamento dos eleitores de Renan Santos e das demais candidaturas eliminadas permanece uma variável relevante para o resultado.
Abstenção como benéfica a campanha bolsonarista — A hipótese de maior abstenção no segundo turno merece acompanhamento, sobretudo entre eleitores indecisos ou insatisfeitos com os dois finalistas. A tendência é que uma maior abstenção beneficie a candidatura bolsonarista.
Maior proximidade com os Estados Unidos — Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro tende a promover maior aproximação estratégica entre Brasil e Estados Unidos, especialmente no combate ao crime organizado. O aprofundamento dessa cooperação poderá gerar custos reputacionais internos, diante de possíveis questionamentos sobre os limites da atuação norte-americana no país.
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