Acordo entre Estados Unidos e Dinamarca sobre a Groenlândia deixa China e Rússia em estado de alerta
PROBABILIDADE: ALTA IMPACTO: BAIXO PROSPECTO FUTURO: NEUTRA
→ Os Estados Unidos fecharam um acordo com a Dinamarca que garante aos americanos controle vitalício sobre a segurança da Groenlândia, o que inclui poder de veto sobre presença militar, bases e investimentos de países adversários na ilha, e a permissão para os Estados Unidos construírem instalações militares e manterem tropas.
→ O acordo tende a colocar China e Rússia em estado de alerta sobre a Groenlândia, uma vez que a ilha não é estratégica apenas para a segurança americana, mas também para a economia chinesa e para a expansão da influência russa.
Escrito por Lorena Pontirolli Branco, Lucas Fernandes Diniz Risso e Manuela Vargas Pires de Moraes Pinto

Fonte: GETTY IMAGES
Estados Unidos e Dinamarca assinaram um acordo sobre a Groenlândia
O presidente Trump anunciou que os Estados Unidos e a Dinamarca estruturaram um acordo que cede aos norte- americanos o controle permanente sobre a segurança da Groenlândia e que permanece válido mesmo se a ilha se tornar independente. Um dos pilares mais importantes do consenso é que qualquer instalação de base militar ou investimento direto na ilha devem passar pela autorização estadunidense, o que impede que países adversários dos Estados Unidos usem essas estratégias. Além disso, a potência americana recebeu a permissão para manter tropas na Groenlândia sem a necessidade de consultar o governo da ilha ou da Dinamarca.
A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, ainda não se pronunciou sobre os detalhes do documento, mas confirmou a assinatura do acordo na Assembleia Geral da ONU na próxima semana. Ainda, a dinamarquesa destacou que o documento “reconhece a soberania e a integridade territorial dinamarquesa, além do direito à autodeterminação do povo groenlandês”. Já o chefe do governo groenlandês descreveu o acordo como benéfico para as três partes envolvidas, dizendo que ele reconhece os interesses da ilha e seu papel na cooperação internacional.
Trump vê o acordo como um avanço estratégico
Para o presidente americano, a Groenlândia ocupa uma posição estratégica para o plano de segurança dos Estados Unidos e seus aliados, pois serviria como um ponto de monitoramento de ameaças russas e europeias. Trump enxerga a ilha de maneira tão fundamental que já ameaçou tomar a Groenlândia à força ou tarifar a União Europeia caso a ilha não fosse entregue aos Estados Unidos. A potência americana mantém uma base no noroeste da Groenlândia, em Pituffik, desde os anos 50, com mais de 100 militares permanentes.
O presidente estadunidense conta com a Groenlândia para a Cúpula Dourada, um projeto de sistema de segurança contra mísseis russos e chineses. Trump também destaca que as reservas de terras raras ainda não exploradas e os hidrocarbonetos da ilha são importantes para a segurança dos Estados Unidos.
Como China e Rússia entendem o acordo?
Com o aquecimento do Ártico, novas rotas de navegação estão sendo abertas na região pelo derretimento das geleiras. Essa situação atrai a atenção da China para o Ártico pois representa uma rota alternativa, mais curta para escoar sua produção para o Ocidente e próxima da Rússia, sua aliada. Também, as oportunidades de exploração de minerais críticos na Groenlândia interessam a China, que aumentaria o seu atual monopólio sobre a oferta de terras raras no mercado internacional.
Diante disso, o governo chinês tende a enxergar o acordo entre Estados Unidos e Dinamarca como um movimento americano de resistência à influência da China no comércio internacional de minerais críticos e como um instrumento para barrar o avanço econômico chinês, seja por impedir a expansão das rotas comerciais da China ou por bloquear investimentos chineses na extração de terras raras da Groenlândia.
Durante a Guerra Fria, Rússia e Estados Unidos disputaram pela influência no Ártico por meio da instalação de armas nucleares e submarinos na região. Por isso, a intensificação da presença americana na Groenlândia tende a sinalizar ao governo russo o retorno à lógica de competição por esferas de influência típica da bipolaridade. Tal sinal seria acompanhado pela percepção de que o acordo com a Dinamarca é uma ameaça dos Estados Unidos de aumentar sua presença em regiões historicamente estratégicas.
O que a Index prevê?
É alta a probabilidade de que o acordo entre Estados Unidos e Dinamarca seja assinado com os termos destacados por Trump em suas redes sociais, dado que os governos dinamarquês e groenlandês vieram à público com falas elogiosas ao documento;
É baixa a probabilidade de uma resposta chinesa ou russa que use a força, tendo em vista que Trump está realizando o acordo por vias diplomáticas e que a distância entre a Groenlândia e a China e a Rússia torna um ataque direto muito custoso.
É alta a probabilidade de que China e Rússia realizem críticas diplomáticas ao acordo ou que retaliem a decisão dos Estados Unidos economicamente, por meio de tarifas, por exemplo, dado que o acordo com a Dinamarca afeta a capacidade de expansão econômica e de influência chinesa e russa.
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