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Cúpula de Ankara reforça "europeização" da OTAN e expõe fragilidade do vínculo com os EUA

  • há 4 dias
  • 4 min de leitura

RISCO PARA O BRASIL: BAIXO


A Cúpula de Ankara revelou uma OTAN em transição, na qual os países europeus e o Canadá estão assumindo mais responsabilidades pela sua própria defesa, à medida que os Estados Unidos reduzem seu envolvimento direto na Europa. Politicamente, o objetivo dos europeus era evitar qualquer confronto público com Trump e promover a imagem de uma aliança unida em tal cúpula, o que eles conseguiram parcialmente, apesar da permanência de tensões com Washington.

→No curto prazo, o aumento dos gastos militares dos europeus fortalece a sua posição de barganha diante dos EUA. Mas a ausência de confirmação de uma próxima cúpula da OTAN alivia a pressão imediata sobre o tema, o que abre espaço para que a Europa foque na resolução de questões internas, como comando militar e planejamento conjunto,  sem depender de Washington.


Escrito por: Ana Luísa Ferreiro Chan, Beatriz Rodrigues Graner, Mariana Campos e Rebeca Lavalle Magalhães.



Fonte: NATO Heads of State and Government - 2026 NATO Summit in Ankara.


A Cúpula de Ankara confirma trajetória de "europeização" da Aliança


Historicamente, os EUA sempre foram o pilar central da OTAN, em razão de sua maior contribuição financeira, militar e estratégica à aliança, enquanto os países europeus dependiam dessa proteção. Atualmente, o termo "Europeização da OTAN" descreve a transição sobre quem assume mais responsabilidade da defesa dentro da aliança. Diante de um recuo dos EUA, a Europa está ocupando esse espaço: aumentando os seus gastos militares, adquirindo equipamentos próprios e se preparando para bancar sua própria defesa convencional.



Tensões com Trump não desapareceram

Os europeus foram a Ankara com o objetivo não declarado de evitar um confronto público com Trump e projetar uma aliança resoluta. Apesar de as tensões entre os atores não terem sumido, o sucesso de tal objetivo se dá pela capacidade de os europeus conseguirem controlar a narrativa apesar delas. Antes do encontro, Trump fez críticas que poderiam ter minado o andamento da cúpula: reclamou do baixo apoio europeu à guerra contra o Irã, criticou nominalmente a Espanha por gastar pouco em defesa e voltou a ameaçar anexar a Groenlândia. Apesar disso, não houve confronto aberto durante o evento, o que reforça o compromisso da Europa em estancar os efeitos do distanciamento dos EUA. No entanto, essa calmaria é superficial e instável, pois as queixas de Trump seguem sem resposta e podem reaparecer a qualquer momento, principalmente porque não há a confirmação de uma próxima cúpula que serviria como um novo ponto de controle.



Investimento em defesa avança, mas dependência dos EUA persiste

Em 2025, os aliados europeus e o Canadá gastaram juntos mais de 570 bilhões de dólares em defesa, o que representa  19% a mais que em 2024 e, se a tendência continuar, esse gasto pode superar o dos EUA nos próximos anos. A OTAN avalia que a Europa já preencheu quase 90% da lacuna de defesa aérea deixada pela realocação de recursos americanos. Ainda assim, a Europa segue dependente dos EUA em capacidades específicas e mais sofisticadas, o que levou ao anúncio de projetos multinacionais para aviões-tanque, drones de vigilância e sistemas de alerta aéreo.


O que a Index prevê?


  • No curto prazo, devido a ausência de uma data confirmada para a próxima cúpula, há uma alta probabilidade de haver uma redução da pressão imediata sobre a relação transatlântica. Consequentemente, é provável que os europeus aproveitem tal momento para avançar internamente em temas sensíveis, como comando militar, planejamento de defesa, arquitetura industrial, sem a urgência de apresentar resultados prontos em um novo encontro com Trump.

  • No curto prazo também há uma alta probabilidade de que o padrão observado em Ankara – pressão pública seguida de acordo controlado – deve se repetir. É bastante provável que Trump continue usando ameaças pontuais, como as feitas em relação à Groenlândia, aos gastos militares, e à redução de tropas na Europa como instrumento de barganha, sem romper a coesão formal da Aliança no curto prazo.

  • No médio prazo, há uma probabilidade moderada de que esse modelo mais equilibrado entre os dois lados do Atlântico reduza, gradualmente, a vulnerabilidade da Aliança às oscilações da política interna americana. Porém, no curto prazo, é igualmente provável o aumento do risco de divisões internas entre os próprios europeus, já que ainda não existe um centro político único coordenando essa transição entre a OTAN, a UE e os formatos minilaterais.

  • Tanto no curto quanto no médio prazo, há uma baixa probabilidade de uma independência estratégica europeia completa, uma vez que  a Europa ainda depende de capacidades técnicas americanas sem substituto viável no continente –  inteligência estratégica, satélites e transporte aéreo pesado. Isso deve manter Washington com influência relevante sobre a Aliança mesmo à medida que a "europeização" avança.
















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