Cúpula de Ankara reforça "europeização" da OTAN e expõe fragilidade do vínculo com os EUA
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RISCO PARA O BRASIL: BAIXO
→A Cúpula de Ankara revelou uma OTAN em transição, na qual os países europeus e o Canadá estão assumindo mais responsabilidades pela sua própria defesa, à medida que os Estados Unidos reduzem seu envolvimento direto na Europa. Politicamente, o objetivo dos europeus era evitar qualquer confronto público com Trump e promover a imagem de uma aliança unida em tal cúpula, o que eles conseguiram parcialmente, apesar da permanência de tensões com Washington.
→No curto prazo, o aumento dos gastos militares dos europeus fortalece a sua posição de barganha diante dos EUA. Mas a ausência de confirmação de uma próxima cúpula da OTAN alivia a pressão imediata sobre o tema, o que abre espaço para que a Europa foque na resolução de questões internas, como comando militar e planejamento conjunto, sem depender de Washington.
Escrito por: Ana Luísa Ferreiro Chan, Beatriz Rodrigues Graner, Mariana Campos e Rebeca Lavalle Magalhães.

Fonte: NATO Heads of State and Government - 2026 NATO Summit in Ankara.
A Cúpula de Ankara confirma trajetória de "europeização" da Aliança
Historicamente, os EUA sempre foram o pilar central da OTAN, em razão de sua maior contribuição financeira, militar e estratégica à aliança, enquanto os países europeus dependiam dessa proteção. Atualmente, o termo "Europeização da OTAN" descreve a transição sobre quem assume mais responsabilidade da defesa dentro da aliança. Diante de um recuo dos EUA, a Europa está ocupando esse espaço: aumentando os seus gastos militares, adquirindo equipamentos próprios e se preparando para bancar sua própria defesa convencional.
A cúpula de Ankara realça essa trajetória. Os dados e as declarações apresentados durante o encontro revelam que esse processo já está se materializando na prática, a partir de verbas e equipamentos reais. O principal desafio apontado pelo ICDS (International Centre for Defense and Security) reside na reorganização interna da OTAN, de modo que os europeus consigam agir sozinhos na ausência da participação americana em determinada operação. Embora aumentar o orçamento direcionado à defesa dentro da organização aumente a influência dos países europeus na organização de forma mais imediata, lidar com a ausência de uma grande potência dificulta a mobilização de suas ações militares e coordenação de esforços dentro da OTAN.
Tensões com Trump não desapareceram
Os europeus foram a Ankara com o objetivo não declarado de evitar um confronto público com Trump e projetar uma aliança resoluta. Apesar de as tensões entre os atores não terem sumido, o sucesso de tal objetivo se dá pela capacidade de os europeus conseguirem controlar a narrativa apesar delas. Antes do encontro, Trump fez críticas que poderiam ter minado o andamento da cúpula: reclamou do baixo apoio europeu à guerra contra o Irã, criticou nominalmente a Espanha por gastar pouco em defesa e voltou a ameaçar anexar a Groenlândia. Apesar disso, não houve confronto aberto durante o evento, o que reforça o compromisso da Europa em estancar os efeitos do distanciamento dos EUA. No entanto, essa calmaria é superficial e instável, pois as queixas de Trump seguem sem resposta e podem reaparecer a qualquer momento, principalmente porque não há a confirmação de uma próxima cúpula que serviria como um novo ponto de controle.
Investimento em defesa avança, mas dependência dos EUA persiste
Em 2025, os aliados europeus e o Canadá gastaram juntos mais de 570 bilhões de dólares em defesa, o que representa 19% a mais que em 2024 e, se a tendência continuar, esse gasto pode superar o dos EUA nos próximos anos. A OTAN avalia que a Europa já preencheu quase 90% da lacuna de defesa aérea deixada pela realocação de recursos americanos. Ainda assim, a Europa segue dependente dos EUA em capacidades específicas e mais sofisticadas, o que levou ao anúncio de projetos multinacionais para aviões-tanque, drones de vigilância e sistemas de alerta aéreo.
O que a Index prevê?
No curto prazo, devido a ausência de uma data confirmada para a próxima cúpula, há uma alta probabilidade de haver uma redução da pressão imediata sobre a relação transatlântica. Consequentemente, é provável que os europeus aproveitem tal momento para avançar internamente em temas sensíveis, como comando militar, planejamento de defesa, arquitetura industrial, sem a urgência de apresentar resultados prontos em um novo encontro com Trump.
No curto prazo também há uma alta probabilidade de que o padrão observado em Ankara – pressão pública seguida de acordo controlado – deve se repetir. É bastante provável que Trump continue usando ameaças pontuais, como as feitas em relação à Groenlândia, aos gastos militares, e à redução de tropas na Europa como instrumento de barganha, sem romper a coesão formal da Aliança no curto prazo.
No médio prazo, há uma probabilidade moderada de que esse modelo mais equilibrado entre os dois lados do Atlântico reduza, gradualmente, a vulnerabilidade da Aliança às oscilações da política interna americana. Porém, no curto prazo, é igualmente provável o aumento do risco de divisões internas entre os próprios europeus, já que ainda não existe um centro político único coordenando essa transição entre a OTAN, a UE e os formatos minilaterais.
Tanto no curto quanto no médio prazo, há uma baixa probabilidade de uma independência estratégica europeia completa, uma vez que a Europa ainda depende de capacidades técnicas americanas sem substituto viável no continente – inteligência estratégica, satélites e transporte aéreo pesado. Isso deve manter Washington com influência relevante sobre a Aliança mesmo à medida que a "europeização" avança.
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